
As camadas de tinta estão descascando
Manchas se formam
Atraindo meus olhos úmidos
A mão rígida sobre o papel
Sem qualquer espontaneidade
O silêncio desenhando meus instintos
Antes que apodreça
Dissolvendo minha angústia
E me entupindo de lágrimas
Eles são tão vulneráveis
Se rasgam como as virgens
Para validar um ato
Talvez seja chuva que não cai
Secando o brilho e desbotando os lábios
Pedras e laços compartilhando o mesmo carinho
Transformando a vida num circo
Sem anestesia e piedade
Como energias negras pairando
Sobre meu quarto pálido
E por cima do meu corpo fúnebre
Nada do que deveria
Interrupções como desastres
Que me abrem o peito
E escancaram a minha dor
Para um aplauso solitário
Quieto e vazio
Como um olhar que murmura
Sem emitir gemidos
Ou esboçar sorrisos
Perdidos num espaço inatingível
E maquiado com um teor de nostalgia
Belas noites famintas
Com sabor de chocolate amargo
Passando pela garganta seca
Tirando o ar dos meus pulmões
Até o que não era
Acontece sem questionamentos prévios
Esbofeteando pensamentos felizes
Mandando para lona toda expectativa
Nada mais frustrante
E eu preenchendo minutos inúteis
Buscando acordar desse pesadelo
Abra os olhos... Já é dia!
(Alliny Araújo)

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